quarta-feira, 2 de novembro de 2016





Breve meditação sobre a semana



A rua. Os carros movidos a petróleo. Os semáforos fechando. As cantadas de pneus freando. Os anúncios dos carros de som. As latas de metal escrito "cerveja". A minhoca de metal japonesa serpenteando numa plataforma de concreto. Sucata japonesa, pois em nenhum canto desses 8.515.767, 049 quilômetros quadrados se é capaz de construir um chassi de trem. Os cartazes de refrigerante, essa bebida sempre presente nos momentos especiais da vida. Afinal, hoje é um dia especial: é o "último dia da semana". O povo se acotovelando numa atmosfera eufórica análoga a da segunda vinda de Cristo.

Nunca entendi essa empolgação com a sexta-feira.

Depois de trabalhados um, dois, três, quatro dias, exaustos, ainda precismos encarar mais uma sexta. "Apenas quatro dias", dirão alguns, mas são quatro dias após um final de semana que começa com a palavra "fim", de tão curto. Embora tenha dois dias no calendário, o aborrecimento que se experimenta em um deles demanda a necessidade de um dia adicional para descansar. Mas daí o despertador já está tocando bem cedo na segunda, a famigerada segunda-feira. Nesse contexto, fica fácil concluir que o desprezo por ela vem do domingo, do aborrecimento massacrante desse dia... 

É de se lastimar o contraste entre os semblantes da sexta e os do domingo, sobretudo no domingo à noite. Schopenhauer dizia que, na vida civil, o domingo representa o aborrecimento, e os seis dias da semana a miséria. Todavia, acredito que o sábado seja um bom dia, pois é um dia livre seguido de outro livre. Na verdade a semana está configurada para o trabalho; o domingo existe para o fastio que clama pela atividade, a semana de trabalho.

E eis que a saudade experimentada na sexta se transforma no tédio dos casais; a necessidade de distração em ressaca; o descanso, nos corpos esparramados em frente ao besteirol da tv. O alívio momentâneo que a sexta-feira traz aos desempregados se transforma em desespero na eminência de mais uma semana de inércia forçada e incerteza. Alguns são confrontados com uma sensação de vazio excruciante no domingo à noite, algo realmente desafiador. 

No domingo à noite o tempo esfrega sua supremacia em nossas caras. Nem é bom pensar muito a respeito. A solução é focar na segunda. Apenas a perspectiva dela traz algum alívio.








domingo, 10 de abril de 2016










Pequeno ser complexo


Existe entre elas e os homens simpatias de epiderme, e muito poucas simpatias de espírito, alma e caráter.
Chamfort



De repente tudo mudou. A certa altura do caminho ela sorriu... Sentimos que o clima tenso dos primeiros momentos havia ficado para trás, lá na cidade de seus pais. Horas antes havia dito pra não nos vermos, mas estava no local do encontro antes da hora marcada. Eu sabia que com ela era assim. Não me preocupava muito com suas flutuações de humor. Ascendente em Touro, mas Lua em Capricórnio, Escorpião na sétima casa e Stellium na décima segunda.

Junto com a mudança repentina, reparei as grandes argolas douradas pendendo do pequeno rosto. Toquei-lhe a coxa macia que o vestido curto não cobria. Por baixo o vermelho da calcinha, outro presente meu.

Você sempre esfregava um pé de cada vez no tapete da porta antes de entrar. Intimamente achava graça naquilo e procurava imitar seu gesto com gravidade. Eu ficava no sofá, olhando pelo janelão da sacada enquanto você ia ao quarto tirar os aparelhos auditivos. Você aparecia no corredor, sorrindo, andando pra lá e pra cá, procurando um canto para se esconder das janelas das torres de apartamentos vizinhas... Procurava esconderijo no banheiro... O vestidinho subia, você o abaixava... Fechar a porta? Melhor fechar as janelas de uma vez... A calcinha vermelha... A fruta amarela cortada em cubos. Eu te abraçava por trás. Os cubos espetados na ponta da faca. Você se virava para me dar na boca... A lembrança de seus pais dizendo que eu não tinha bom nível... Minha surpresa com a atitude deles, com a minha, principalmente, de ficar surpreso por ainda esperar algo bom do ser-humano. Você fazendo tudo que eu quisesse e um pouco mais. Tardes inteiras no meio da semana no alto da torre, sem mundo lá fora.

Você dizendo que eu precisava sorrir mais... Pedindo pra ficar só... Precisava muito... Não ia transar mais ninguém... Eu levando a sério... Nos sábados tinha compromisso... Sair com as amigas e "o ficante". Estavam "apenas de conhecendo". Com nós as coisas foram diferentes... Seu medo de pedalar, marcamos no Jardim Botânico. Fui o primeiro a chegar... Choveu... Fomos direto a sua casa... Nem uma palavra... Animais no cio... Depois arrependida...

Você dizendo que eu era "estranho". Eu pedindo para saber por que, querendo saber como você me via... Você não querendo falar. Eu insistindo... Você explicando que não se sentia segura... Que em certa ocasião eu ri quando você não ouviu direito uma pergunta minha.

Mandando eu te esquecer...










sexta-feira, 25 de setembro de 2015



Rex



Rex sempre fica embaixo de uma marquise estreita quando chove. Deitado sobre o piso nu, fica meio encharcado pelos respingos da chuva quando bate no chão. Mas ele fica ali, parado, em silêncio, com o olhar melancólico encoberto pelas longas mechas de pelo acinzentado.
Sua dona, uma velha doente de voz irritante, o xinga a todo momento da janela. Com gritos e palavrões, manda que saia dali, que vá para dentro da garagem se abrigar. Mas ele nem se mexe. Na verdade, Rex é xingado sempre, até em dias ensolarados sem nuvens. É xingado por nada, apenas por estar na sua, pois ele é super na dele... Talvez por isso sua dona o tome por maluco, como os garotos que nos conselhos de classe são criticados entre os professores por serem muito quietos. 
Às vezes Rex se empolga e sai de sua inércia. Foge pelo portão do quintal e sobe correndo até a frente da casa à procura da companhia dos donos. Mesmo assim é xingado. Sob berros, o mandam descer... Cabisbaixo, ele volta lentamente para o quintal, como se tivesse sido esmagado por uma pedra enorme... 
Talvez Rex não goste tanto assim de ficar na marquise estreita nos dias de chuva... Talvez preferisse  estar em um local sem respingos, como o interior seco da garagem. Só que lá fica Bela. Velha, pelo curto, patas traseiras arqueadas, olhos esbugalhados e braba como o diabo. Não tolera que transitem perto dela. O rapaz que aluga a peça ao lado da garagem pode atestar a índole de Bela quando, distraído, certa vez passou perto dela na garagem. Com seus olhos esbugalhados, avançou nele.
Ninguém entende as reservas de Rex. Nem quando estão comendo perto dele. Até estica um pouco o focinho, põe-se nas quatro e ensaia uma aproximação, mas é o máximo que faz... Logo recua com seu olhar humilde e volta para a marquise. Rex é capaz de reprimir seu mais poderoso instinto. Antes passar necessidades, do que acabarem com ele. 





sábado, 5 de setembro de 2015



Ex vagabundo






Cheguei do trabalho cedo e senti que precisava dar uma volta. Planejei que iria a uma lan hause matar tempo até umas dez da noite, para depois ir a um bar beber e olhar mulheres. Só que não me dei conta que moro nos fundos da América do Sul, e as lans fecham às sete da noite... Fiquei como um cão perdido. 
Lembrei que não tinha comido nada desde o almoço e resolvi procurar um lugar para jantar (e matar algum tempo até a hora de sair para o bar). Entrei em uma lancheria e pedi um "X filé". A chapista não reparava que eu a observava. Com a ponta da espátula, tirava pequenas lascas da borda do bife e as beliscava enquanto o preparava. Na minha volta, gente comum, tomando a cerveja que seus trocados podiam pagar.
Depois de comer fiquei preguiçoso. Somando-se a isso a lembrança de que havia trabalhado como nunca naquele dia, não foi difícil desistir do meu programa noturno. Sem a perspectiva de encontrar algo a mais para matar tempo, dei-em conta de que havia perdido a habilidade de vagabundear.
Foi só abrir a porta para ser envolvido por um sentimento de solidão que me incomodou em um nível de sensação física a ponto de sufocar. Ausência total de vínculo afetivo é como ausência de alimento para o corpo, ausência de nutrição, em nível literal, não metafórico. Uma vez, há alguns anos, uma astróloga interpretou minha posição de Vênus em Capricórnio como ausência de "nutrição". Em se tratando de Vênus, sabemos de que tipo de nutriente está em questão. Fui para a cama bem cedo.
Custava a dormir. Matutava que as únicas coisas que possuía naquele momento eram um trabalho e um quarto alugado, e como estava preso a isso. Quem diria que a única coisa que teria um dia seria o meu trabalho... Nessas horas de vigília forçada, recordava aqueles que haviam perdido a fé em mim justamente no momento em que estava melhor intencionado. Com pesar via que aquilo que pisotearam fora nada menos que o meu melhor; desprezado fora todo meu ouro. Sentia raiva ao lembrar de buscar a companhia de quem me fizera promessas de mais tempo, enquanto sempre se desculpava justamente com a falta dele. Logo me consolava com a ideia de que ninguém tinha culpa. Atores inconscientes no drama da vida; gente recém chegada na vida do outro. Permaneço esperando-a. 
Me resignava ao lembrar de não ter dado valor à amizade e talvez não ter sido bom o suficiente com quem me amara.












quinta-feira, 15 de janeiro de 2015



Metaterrorismo

Mantendo o medo e desviando o foco para detalhes



Sinistros como o de Paris devem ser encenados na frequência certa para manter na mente das pessoas a história de "um mundo dominado pelo terror", inaugurado no raiar do corrente século na ilha de Manhattan. Foi o caso da maratona de Boston; foi o caso da "Crise dos Mísseis de Cuba", mas na forma de incutir medo anterior, denominada "Guerra Fria".

A falta de coerência da última encenação estimula especulações e, portanto, o debate... Toda a mídia, fóruns, qualquer ambiente de debate real ou virtual envolve as pessoas em torno do assunto, nesse caso, o já citado conceito da "realidade de um mundo ameaçado pelo terror."

Temos que ter cuidado para não cairmos na armadilha de ficar alimentado essa trolagem da realidade. Tomar cuidado para não sermos cúmplices na perpetuação de uma certa descrição da história que sabemos a quem serve.

O mais decepcionante é ver gente de certo nível, como médicos e professores se referindo nos termos das premissas da mídia de massas.

E já que o "eu sou" está na moda... Tomo a liberdade de registrar um que acho que tem a ver com muita gente de bom senso:

"Eu sou desconfiado".



domingo, 24 de agosto de 2014



A heroína do vagão



Achei uma mesa ao lado do janelão no quarto andar, o quarto de cinco andares repletos de estantes de livros. A vista até que é razoável: a cobertura de concreto armado da universidade encimada por uma massa verde de árvores até o horizonte de onde brota o topo de um edifício. Bem diferente do estreito horizonte ondulante pelas ondas de convecção que brotam do asfalto abrasador nesse dia de verão em pleno agosto, aqui no paralelo trinta graus sul. Embora inspiradora, a vista é o de menos. O mais importante é que aqui é tranquilo. Descobri que as bibliotecas das universidades são verdadeiros oásis de tranquilidade em meio à correria urbana. Olho para os livros placidamente ordenados lado a lado nesse ambiente climatizado, silencioso e acarpetado e me sinto feliz pela vida que têm. Tudo estaria perfeito se não fosse o click de um mouse noutra mesa... Não um click lá, outro acolá, mas um frenesi ininterrupto de clicks tal qual uma rajada deles.
Até pensei em trazer um computador para escrever, mas é um trambolho que incomoda carregar. Hoje era dia de sair de mãos livres. Por isso peguei um pequeno caderno velho e uma caneta para enfiar nos bolsos da calça. Também tive que enfiar um livro de bolso para negociar no sebo e poder estar aqui, pois tinha apenas metade da ida e volta de trem. Então saí pelas ruas da cidade com aquele volume nas calças, como se tivesse acabado de sair de uma clínica de implantes de próteses nos glúteos.
Ao sair de casa, ao parar para a travessar a rua, tive que esperar um tempo além do meu pavio até todos os carros passassem. Sentia-me meio esquisito. Pensei em tomar a primeira esquina em direção ao centro, mas tomei outra mais adiante para  evitar que alguns vizinhos me vissem. Em direção ao centro, era como se todos em toda parte estivessem me observando: de dentro das casas, nas calçadas, nos carros que passavam, até cães e gatos. Ocorreu-me a possibilidade de rejeitarem o livro, o que me obrigaria a dar meia volta e retornar para as quatro paredes do meu quarto. Mas estava em boas condições, era um autor cultuado... Também era o meu último livro para negociar. Já tive mais livros; a maioria foi vendida em tempos de crise. Restaram apenas alguns de que não pretendo me separar, livros sobre a arte da ficção e uma novela chamada Amoka melhor coisa que já foi escrita, em minha opinião.
Não gostava quando tinha que parar para esperar os carros passarem. Era um alívio quando conseguia chegar ao outro lado da rua de uma vez. Também não queria contato visual com ninguém. Quando via um grupo de garotos bem à frente, atravessava com a maior satisfação... As ruas e praças daqui estão cheias deles; é a cidade das turmas de garotos. Mas quando passei por uma lancheria, onde raramente comia, logo adiante vinha o atendente pela calçada. Pensei em passar sem fazer contato visual, mas mudei de ideia. Cumprimentos.
Bem, cá estou nesse depósito de conhecimento, graças à venda de um livro que prometia pelo autor e título, mas que não me prendeu além da vigésima página. Uma garota na mesa da frente encontrou um conhecido noutra mesa. Levantou, trocaram beijos e conversam... Também me encontro aqui por causa de outro livro. Ao contrário daquele deixado no sebo, esse li sessenta páginas de uma vez na primeira noite em que o abri. Também me inspirou a escrever, e, antes de mim, a Anaïs Nin, que escreveu um prefácio incrível em certa edição. 
Pensava sobre isso na estação enquanto esperava a lagarta de metal acinzentada. Foi uma espera longa, de quase quatro décadas, até que o trem chegasse a essa cidade, uma cidade a cinquenta quilômetros de POA. Aliás, esses cinquenta quilômetros, com sua dúzia de estações, são a extensão total de trilhos para transporte público em um Estado inteiro, e param às vinte e três horas. Quando penso nisso, lembro das cidades europeias, como Praga, por exemplo, uma cidade do leste europeu parada no tempo, mas cujo trem funciona vinte e quatro horas, há mais de um século. E se lembro de uma cidade como Hamburgo, com sua rede de metrô ramificada pelos bairros, sinto saudades do que não vivi. 
Dentro de todo vagão existe uma placa afixada na parede com o nome do fabricante japonês e a sugestiva data de fabricação: “1984″. Um número bem apropriado, pois evoca o universo orwelliano de retrocesso social, o que exemplifica muito bem o abismo de infraestrutura urbana em que vive a gente daqui. Imagino que o povo de onde veio esses vagões deva estar andando em algo similar à naves atualmente. Mas o pior é o que vejo ao longo da linha do trem: ilhas de miséria e casebres; na melhor das hipóteses, conjuntos habitacionais deprimentes com telhado "Brasilit", frutos do programa de habitação pública desse país. Quanto melhor é a qualidade do que você enxerga na rua, melhor é seu bem estar e vontade, melhor é sua mentalidade, civismo, sentimento de identidade coletiva… Mas isso não é interessante pra eles. Deve nos ser negado...
Agora só ando de trem, porque é bem mais barato, confortável e rápido do que o transporte rodoviário. Também porque nos últimos tempos tenho andado meio solitário. Às vezes faço viagens apenas pelo contato humano que os vagões oferecem. Estar na companhia de desconhecidos sem trocar palavra já é o suficiente. 
Tudo muito tranquilo, a lagarta de metal seguia seu rumo até parar na primeira estação. Uma mulher entra com um garoto literalmente pendurado pelo braço. "Eu gastei dinheiro com isso pra você perder!", grita e sacode a criança que segura um DVD que quase deixara cair no vão entre a plataforma e o vagão na hora de embarcar. Está possessa. Esbraveja e sacode o menino como um boneco de pano. Ele não se contém mais e desata o choro que até então segurava. Ela o ergue com vigor e o atira no colo deitado... Os dois silenciam... A mãe fita o vazio com o semblante contorcido. O menino jaz em seus braços com dois riscos de lágrimas secas nas bochecha, olhando a capa do DVD. Ambos entorpecidos num paradoxal abraço dolorosamente agradável.
Sempre há interações num vagão em movimento, de olhares à hora de dar lugar a alguém... Esse último é bom porque você simplesmente cansa de ficar sentado o tempo inteiro e só fica aguardando a hora de ceder lugar. Eu já estava com a bunda quadrada quando comecei a cuidar sempre que a porta se abria nas estações para ver se não entrava algum idoso, grávida ou alguém com bebê de colo... Duas estações e nada... Até que na próxima entrou um velho bem magro, camisa desabotoada no peito, barba branca e chapéu de palha. "O senhor pode sentar aqui", fui levantando. "Muito obrigado pela gentileza".
Que alívio... Agora estava em pé, escorado numa das portas laterais. Uma garota entra e divide a porta comigo. Notei o choro de uma criança pequena no outro extremo do vagão, mas evitei olhar, mantendo o rosto pra frente. Também notei que a garota ao lado prontamente tirou alguma coisa da bolsa. Interpretei o gesto como o abrir de um livro, "será que é um livro?". Com a cabeça fixa, torci bem o olhar para o lado dela; era um livro, grosso, páginas amareladas. "Sobre o que seria? Só preciso de uma palavra". Resolvi dar uma olhada na direção do choro. Era um menino pequeno sentado nos joelhos de uma mulher afundada no banco com ar exausto, apenas segurando as mãos da criança que gritava de verdade. Aquele choro tomou conta do vagão, o vagão era só aquele choro. Na hora de voltar a cabeça para frente aproveitei e dei uma olhada de relance no livro da garota, mas só pesquei alguns emes e artigos... 
Achei que o choro fosse dar trégua durante a viagem. Quatro estações e nada. Alguns já davam sinais de desconforto e viravam para olhar com reprovação na direção do berreiro... 
Reparei em uma adolescente loira de olhos verdes e pele bem clara sentada de lado num banco, conversando com um carinha em pé. Entre eles, um outro rapaz sentado ao lado dela... Quando percebeu que eu a olhava, começou a brincar com uma mecha de cabelo do rapaz ao lado. "Namorado", pensei... O vagão estava toleravelmente cheio. Um gordinho de cabelo crespo estava com um gordinha de camiseta branca e barriguinha de fora. "É no balanço da rede, é no balanço do mar...", cantava o gordinho. A loira de olhos verdes conseguia conversar com o carinha e retribuir meus olhares ao mesmo tempo. Ela era a única entre eles que notava minha presença ali; para o resto do grupo em não existia. Enquanto uma nova estação se aproximava, o carinha começa a se despedir da loira. Uma garota de cabelo preto se levanta para descer junto com ele. Aquele grupo que eu havia tomado por tês, de repente, revelou-se quatro. Eu não havia reparado na de cabelo preto. O gordinho abre uma lata de cerveja, "é no balanço da rede, é no balanço do mar, que eu vou plantar uma semente, erva doce da paz", canta se equilibrando com a lata no vagão. A gordinha fica meio sem jeito. A garota de cabelo preto o aponta para o grupo com uma risadinha.
"Unhéérr, Unhéérr, Unhéérrrrrrrr"... 
"Vamos lá mulheres... Sei que vocês sabem como acalmar uma criança". De repente o choro cessa. "Por Júpiter, um milagre"... Olho pro lado e vejo uma heroína em pé com um pacote de balas aberto na frente da criança.
O carinha que conversava com a loira desceu com a garota de cabelo preto. Os dois namorados ficaram a sós, num clima ameno até que ela disse alguma coisa naquele tom feminino enérgico... "Você também faz assim!", retrucou ele como um animal acuado... Ela virou o rosto para a janela. Pude ver o reflexo da tromba. Ele parecia pior: ombros encolhidos, cabeça baixa, mãos entrelaçadas entre as coxas, murcho... E assim permanecia depois de terem se levantado para sair. Esperando a porta abrir, ela o abraça em câmera lenta e lhe toca os lábios com suavidade. 










sábado, 2 de novembro de 2013



Confissão II


A quem interessar possa, alheio a toda teoria de evolução nas obras dos escritores (grau de confissão), devo dizer a quem ler esse blog que irá associar as histórias à vida da pessoa que leva o pseudônimo de "Saturnino Estrada", naturalmente. Tal pessoa já escondeu histórias pelo tempo em que trabalhou num ambiente dominado pelo politicamente correto. Ambiente que acabou deixando por não fazer jus às expectativas morais de alguns colegas e superiores. Também escondeu algumas histórias nos momentos da vida em que houve a perspectiva de encetar relacionamento íntimo com alguém. Assim o fez por julgar que o tomariam por mulherengo, promíscuo, radical, egoísta, vagabundo, pervertido, etc.
A partir de hoje, tudo que escreveu permanecerá à mostra, pois concluiu que todos os esforços no sentido de se ser aceito são vãos, e sempre haverá alguém pra julgá-lo. 





quinta-feira, 18 de julho de 2013




Me dei bem




O ônibus seguia caminho rumo ao estado vizinho. Quase lotado, com apenas duas poltronas vagas. No fundo do corredor, Carlos lia o livro que começara há uma semana. Vez ou outra levantava os olhos da página e olhava pela janela em estado meditativo. Passavam por um trecho muito escuro, iluminado lá e acolá por pequenos pontos brilhantes. Mais a frente do corredor, a outra poltrona, embora vaga, já tinha dono, pois Geovane, sentado ao lado dela, a havia comprado também. Logo que entrou no ônibus, ocupou a da janela e usou a do lado como mesa para pacotes de salgadinhos e latas de refrigerante... Também não parou de falar no celular. Eram ligações curtas, mas intermitentes. De cinco em cinco minutos teclava um número e os outros passageiros se preparavam para mais uma sessão de uma conversa em tom de justificativa e suplica ansiosa... Numa dessas conversas a outra parte pareceu desligar na cara dele.
Um clarão rente ao horizonte sinalizava a próxima cidade. Meia hora depois, a escuridão da rodovia foi preenchida pela claridade de uma larga avenida, iluminada por altos postes de aço que despejavam uma luz amarelada.
O ônibus parou na próxima rodoviária. Deserta, apenas uma garota. Em pé, encolhida, com a mão trêmula dava as últimas tragadas num cigarro manchado de batom. Enquanto o motorista guardava a mala dela no bagageiro, Carlos a observava pela janela. Pequena, cabelos vermelhos, pele muito clara, branca como neve... Reparou que Geovane também a observava.
A garota entrou no ônibus, olhando para os lados à procura de um assento. Quando chega na primeira poltrona vaga, para um instante e olha pra Geovane, enquanto Carlos a espiava do fundo... Se passasse pela poltrona de Geovane, era certo que viria sentar-se ao seu lado... Ela segue em frente. Carlos se anima, "me dei bem"... Ela continua em frente até o fundo do corredor, encontra a poltrona vaga e olha para o rapaz loiro, de óculos, absorto num livro.
"Com licença?"
"Pois não"
Ela senta.
"Ah, como é bom estar no quentinho. O que está lendo?"
"Apologia de Sócrates", ele responde, mostrando a capa do livro.
"Ah, desculpe, não me apresentei... Valquíria".
"Prazer. Carlos". Ele notou que Geovane havia se levantado e olhava por cima da poltrona na direção deles.
Olhou melhor a moça. Tinha os cabelos desgrenhados e cheirava a cerveja. Estava contente de estar perto dela. Até o livro havia ficado mais interessante.
O asfalto plano terminou. Entraram em um trecho esburacado. O ônibus sacolejava, rodava devagar, desviando o tempo inteiro de crateras. Não era raro parar e arrancar, parar e arrancar... As linhas pulavam a todo instante no livro de Carlos. Fechou-o num suspiro. A essa altura o silêncio já ia longe entre ele e Valquíria. Resolveu puxar assunto com sua companheira de viagem...
"Conhece Sócrates?"
Firmemente agarrada aos braços da poltrona, ela olhou para Carlos com expressão de quem se sentiu mal com a pegunta. "Olha, desculpe, tô meio cansada, sem cabeça pra falar de Religião". Nesse mesmo instante se levantou e foi ao banheiro. Depois de sair, não voltou pro lado de Carlos; seguiu o corredor para a frente do ônibus. Sem cerimônias,  foi sentar com Geovane. 
"Me dei mal".
Carlos espichou o pescoço acima da poltrona da frente para olhar os dois. Parecia estarem num papo descontraído, conversando amenidades, como se já se conhecessem. Se arrependeu de ter escolhido um tema tão intelectualizado para puxar assunto. Ouviu o som de uma lata de refrigerante se abrindo. Momentos depois outro som, estranho... O mesmo som se repetiu e demorou pra perceber o que era...
Espichou o pescoço e viu Geovane em pé limpando as calças freneticamente, enquanto Valquíria vomitava aos jorros.
"Me dei bem".





quinta-feira, 18 de abril de 2013



Sabor de liberdade 



A paisagem era incrível. Em determinado trecho, a estrada de alta velocidade ficava entre uma enorme lagoa e altas colinas encarrapitadas de verde. Pegamos a estrada um pouco antes do crepúsculo. Não estava quente nem frio, e a luz era aquela dos dias meio nublados... “Tô gostando da minha independência... Poder bancar uma praia pro meu filho”, disse a mulher ao meu lado, dirigindo no início do caminho de cem quilômetros que nos separava de nosso destino. Eu havia passado uns dias com ela e o filho adolescente na casa de praia de seus tios. Deixamos o rapaz com a tia e retornamos para nossa cidade; ela porque faria uma prova de concurso público, eu porque estava me acostumando àquela mulher e a queria seguir por toda parte. Comecei a fazer carinho em sua perna. Puxei seu vestido pra cima até expor a calcinha. Enfiei a cabeça por baixo do volante para beijar suas coxas grossas. A posição era desconfortável, desisti. “Por que parou?”, ela disse. Era uma mulher linda, do tipo mulherão. Farta de cabelos, lábios, coxas e peitos. Rosto bem proporcionado, voz suave e aveludada. Se expressava com a suavidade e a doçura de um vinho do porto. Uma mulher inebriante.
Nos primeiros contatos depois de nos conhecermos, passou a revelar o quanto os últimos anos de casada lhe atormentaram. Em tom de tristeza, falava sobre as noites que passara chorando na cama ao lado do marido, sobre o esforço sobre-humano para se levantar, maquiar os sinais da angústia e ir trabalhar no dia seguinte. Foram anos sufocantes em que teve mais de um emprego apenas para ficar o máximo ausente do convívio conjugal no apartamento minúsculo onde moravam. O casamento restringia sua ânsia de expansão. Nesses anos de desgosto contínuo, de viver obrigada numa relação indesejável, engordou muito e descobriu conforto em cigarros de canela. De uns tempos pra cá, pouco antes de conhecê-la, seu corpo diminuiu drasticamente de volume, de forma que até hoje me pego tentando descobrir o porquê daquela transformação radical. Quando me mostrou umas fotos de dois anos atrás não a reconheci e fiquei imaginando como aquela mulher havia se transformado na mulher linda e sensual de agora. Verdade é que a tal transformação foi sincrônica a uma transformação interior. 
Havia momentos em que admitia que o marido cumprira bem o papel de pai quando, mãe solteira, necessitou da estrutura de um lar na infância do filho. Mas, agora, adolescente, as necessidades eram outras. O marido não faria jus a acompanhá-los nessa nova fase. Embora homem trabalhador e honesto, permanecera sempre na vida de operário, enquanto ela ascendera na carreira e tomou as rédeas do lar. Queixava-se de que em anos de casamento "nunca pôde ser mulher"... Repetia que precisava de "um homem de verdade" ao seu lado para "fazê-la mulher", para poder relaxar e abrir mão da tensão de ter que estar sempre no controle. Eu disfarçava, mas ouvi-la falar nesses termos me apavorava. Solteiro, com dois ou três namoros na vida, eu não sabia o que significava um casamento e muito menos uma separação. Ficava matutando o que significava “um homem de verdade” no conceito dela e temia que talvez não fosse capaz de fazer jus a ele, porque estava começando a me apaixonar por ela. Mas isso não chegava a preocupar tanto, pois na parte do "fazê-la mulher" ela sempre se mostrou muito contente e às vezes ligava só pra dizer que estava muito feliz comigo.
Na verdade eu já estava apaixonado e não sabia. Prova disso é que eu não estava acreditando que estava com aquela mulher que um dia apareceu do nada na minha frente. Ainda lembro daquela aparição repentina. Era uma tarde de feira multicultural das escolas do município. Professor estagiário que era, conversava banalidades com o secretário em frente ao estande da escola em que trabalhava. Montado entre outras dezenas de estandes, o nosso era o único em que havia alguém. Permanecíamos ali por ordem da diretora. O restante dos professores que era para estar na feira estava na praça de alimentação, fumado na rua, ou não tinha vindo. Há certa altura, a conversa acabara, os bocejos surgiram... Torcíamos para que alguém passasse, que olhasse o estande e trocasse palavra. Apenas uma professora apareceu. Carregava um máquina fotográfica. Puxei assunto e pedi para bater uma foto com meu amigo. A professora foi embora, e voltamos ao nosso estado de tédio anterior. Do nada, uma dupla de mulheres surgiu na nossa frente... Uma delas pálida, com expressão morta, a outra viva e radiante. No dia seguinte, perto do meio dia, na cozinha da sala dos professores, eu me servia de café quando uma colega, também estagiária, veio me trazer o telefone de uma das duas, da viva e radiante. Parece que a pálida conhecia a minha colega, e a radiante pediu pra ela (a pálida) passar o telefone pra minha colega. 
Esperei para ligar no final do turno da tarde, pois como trabalharia à noite, ficava pela escola. Aproveitei que a secretaria estava vazia e disquei o número que havia recebido. Pelas primeiras palavras que trocamos, senti uma mistura de surpresa, empolgação e satisfação na mulher que me atendeu. Naquela maneira meio nervosa dos primeiros contatos, confessou que "havia arriscado" me passar o telefone, pois pensara que talvez eu não desse bola pra ele. Também se apressou em dizer que era casada e pediu para anotar seu e-mail. Em casa, conversamos por MSN. Ela queria me ver na manhã do sábado seguinte, pois à tarde tinha festa de São João na sua escola. Eu era um animal de vida noturna que desconhecia o valor de uma manhã, e pedi para deixar para o outro sábado. “Ah, vamos tomar um chimarrão. Não vou agarrar você”, ela insistiu, me surpreendendo. Eu achei graça naquela colocação e questionei se “agarrar” não era o papel do homem. Também disse que fiquei contente por ter ousado me mandando o telefone, e que a parte dela estava feita. Falei pra ela ficar tranquila que no momento certo eu faria a minha.
Na tarde do outro sábado caiu um toró, e eu estava encharcado no ponto de encontro. Anoiteceu, e nada dela... Liguei um monte de vezes, e ela resolveu aparecer... Parou em frente ao ponto de encontro, não me viu chegar e tomou um susto quando apareci no vidro do carro. A chuva continuava. Entrei todo encharcado no carro. Tirei a camisa. Peguei a mão dela que fervia. Disse a ela que estava pegando fogo. “Uma amiga disse que eu deveria fazer Reiki”, falou. Mais meia dúzia de palavras, eu a puxei pra mim. Depois de um longo beijo, mal afastamos as bocas, ela se apressou em deitar a cabeça no meu colo. Nessa época ainda morava com o marido e usava aliança. Eu a acompanharia na transição da vida de casada para a de solteira, nos últimos momentos em que romperia as correntes do casamento rumo à liberdade. 










sábado, 6 de abril de 2013



Lembranças



Viver e recordar são indissociáveis. Uma vivência particular passa, mas as imagens dela ficam estampadas na tela mental. Por isso suspeito que a lembrança possa se sobrepor à vivência. Confesso que já tive a estranha sensação de não ter existência concreta, apenas lembranças: um apanhado virtual de imagens de coisas vividas. Parece que o tempo tem culpa nisso, pois cada segundo que o ponteiro do relógio pula já é passado. A duração das experiências vividas é regida pela lei do princípio meio e fim. Fora isso, existe a velocidade em que esses três elementos se sucedem. Uma vivência dura na medida de nossa sensibilidade à velocidade do tempo.

Verdade é que o passar inexorável dos anos altera a qualidade de nossa percepção sobre a velocidade do tempo. Crianças e adultos percebem isso de forma diferente.. Na infância o tempo é muito mais dilatado; um mês é uma eternidade, e cada minuto é vivido com espontaneidade. Ao contrário, nós, adultos, somos tomados pela perplexidade ao final de cada dia. Sentimos o tempo passar com velocidade alucinante, mas, ao contrário das crianças, temos a incômoda sensação de que não o estejamos aproveitando satisfatoriamente.

Então passamos a antegozar momentos agradáveis: o fim de semana, um passeio, encontro com a namorada... Serão ocasiões em que poderemos "esquecer do tempo", mas a lei do princípio meio e fim, a estrutura em termos de horários e compromissos, põe termo nesses momentos que gostaríamos de congelar. Se o tempo reduz as experiências boas a lembranças, que sentido há na ansiedade de antegoza-las? Dizer é fácil. Insatisfeitos, alguns vão atrás de experiências cada vez mais intensas na tentativa de reter o momento, parar o tempo. Mas sensação de que ele não pode ser retido, que nos escapa como areia entre os dedos, permanece. Talvez o caminho seja apenas fluir, se entregar, e os bons momentos, inevitáveis que são, serão melhor aproveitados e não deixarão tanta perplexidade por terem passado.

Viver e lembrar. Queremos vivenciar momentos agradáveis, repeti-los. Mas no final das contas só restará uma lembrança. Quando acordamos para o caráter volátil das vivências só nos resta valorizar as lembranças. As boas nos envolvem em devaneios agradáveis, as más servem de lição. Por isso, tão ou mais importante quanto o que se vive é o que se lembra. E se nossas vivências se tornam lembranças, melhor que sejam boas. Tal consciência sugere usar o bom senso a fim de conduzir as experiências presentes da forma mais positiva possível, pois tudo passa na velocidade de um raio...

Desde que começara a ler essas linhas, várias inspirações e expirações já passaram, acaso prestou atenção em alguma? A respiração nos dá uma noção ritmo implacável do tempo, mas, curiosamente, quando prestamos atenção nela, somos tomados por uma sensação reconfortante de eternidade. A eternidade é maior que o tempo, o contém. O Tempo é uma lei no contexto da aventura humana. "Ao tormento da existência vem ainda juntar-se a rapidez do tempo que nos inquieta, que não nos deixa respirar e se conserva atrás de cada um de nós como um vigia dos forçados de chicote empunho", disse Schopenhauer

Não é o lugar em que se está, é a forma como o momento é vivido em graus de entrega a ele. Talvez não seja o "que se faz" nos moldes pré-fabricados de experiências "felizes". Talvez seja o que se é.